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Crônica


No fundo ainda era a mesma menina, aquela com os joelhos esfolados e lagrimas nos olhos que corria para os braços da mãe, agora ela tinha medo de correr para os braços de alguém, não se desmanchava em lagrimas e em vez dos joelhos era seu coração que estavam esfolados.
Ela tinha nos olhos a tristeza de uma vida não vivida e uma incerteza do que poderia ter sido. Podia contar nos dedos as vezes que sorriu por amor. Mas não cabia mais em suas mãos a quantidade de vezes que chorou pelo mesmo motivo.
Todo dia ela acordava pronta para dormir, não se surpreenderia se os lençóis da cama a precedessem como uma tentativa de fazê-la viver. Levantava e lavava o rosto e com a água que caia na pia, ia embora todos os bons sonhos que tivera durante a noite, pedindo intimamente o fim do dia que tinha apenas começado.
Mas aquela menina que ainda existia dentro dela, um dia se arriscou num impulso mais alto enquanto balançava,segurando com força as correntes enferrujadas e fechando os olhos enquanto o vento gelado paralisava seu rosto. Esvaziou seus pensamentos, e voltou sorrindo. E tudo que ela não precisava é que ele voltasse. E percebeu que se talvez ela arrumasse uma distração maior que ele, maior que uma musica no ultimo volume ou que funcionasse melhor que um banho quente. Talvez ele sumisse de vez. Sem fugir dos problemas para esquecer a dor. E sim aceita-la. E a mesma menina com o coração esfolado desistiu de encontrar o amor no meio do caminho e mesmo assim ela teve o seu quase final feliz. Não tão final, por que ainda não acabou. 

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