Se era amor? Não
sei se era. Restou uma dor profunda, mas poética. Fiquei cega ou quase isso, me
restou uma visão embaraçada do que aconteceu. Tornou-se lembranças, como filmes
antigos, onde há cenas que não conseguimos entender. É um velório sem defunto.
Eu era daquele homem, ele era meu e não era amor.
Dizem que as
pessoas podem se apaixonar apenas pela sensação de estar amando e não
propriamente dito pelo amado. Pode ser uma possibilidade. Eu estava feliz,
estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e convicta, estava
tranquila e fazia planos. E do nada acabou. De um dia pro outro eu estava
sozinha. Foi como se todas as janelas estivessem sido fechadas em um dia de luz
de sol. Como se tivesse tirado um programa do ar e não tivessem desligado a
televisão, fica ali o barulho da madrugada, o chiado, a falta de imagem, uma
luz incomoda no escuro.
Nunca havia me
sentido tão desamparada. Eu tinha que responder as minhas próprias perguntas,
eu tinha que ser serena em minha própria demência. Eu tinha que ser lógica para
entender a minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.
Se não era amor,
era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações que são abandonados.
A carência, a saudade, a magoa. Um quase desespero total. Uma espécie de avião
em queda que a gente sente que vai se estabilizar mas que também se espera chocar no solo. Eu bati a 200km/h e
estou voltando a pé para casa.
Eu sei, talvez
você vá me dizer que eu não passei de uma diversão, uma paixonite, um jogo
entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta o suficiente
para brincar tão longe do meu pátio, das minhas bonecas. Onde é que eu tava com
a cabeça de acreditar em conto de fadas? De achar que a gente manda no que
sente.
Eu nunca amei ele.
Eu tenho certeza. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não foi amor,
foi sorte. Foi uma travessura, uma aventura, uma sacanagem. Não era amor, era
melhor.

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