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Aquele olhar


Foi quando eu vi os olhares que eu pude perceber que eu fui entender. Eles se olhavam, mas não estavam trocando juras de amor, não estavam andando de mãos dadas ou se chamando por apelidos infantis. Eles se olhavam, e foi uma das cenas mais doce que eu já vi. Eles estavam se confortando, se sabendo, se completando. Eles eram mais que amigos, se desejavam, se protegiam, e foi só pela cumplicidade do olhar, que eles deixavam de ser dois e se enlaçavam em quatro.
E foi ai que eu quis ter um olhar para mim. Não alguém para chamar de meu, como fala o clichê, a conveniência, mas quis um olhar que fosse meu por puro encaixe. Talvez tenha sido um pouco de inveja e naquele momento percebi que nem eu mesma estava a salvo de ter esse sentimento. Eu soube naquelas duas pessoas que elas não se sentiam sozinhos ou despercebidos. Que mesmo depois de um dia cheio e chato, elas tinha a certeza de um carinho. Tinham sentimento.
E eu quis. Quis algo alem da rotina chata de trabalho. Quis algo alem de pessoas chatas e cabelos bem penteados. Quis sim, algo como o frio na barriga e a respiração travada. O sorriso bobo, as mãos suadas durante o inverno mais rigoroso. Quis algo errado que me fizesse bem só para escapar do caminho obvio de toda a noite.
Uma espera no fim do dia sabe? Essa espera. Não a espera de uma vida toda sem saber o que buscar para ser feliz. Só sair do dia igual para procurar uma noite diferente. E tornar esse diferente comum, só por que é bom estar perto.
Vejo que todo o amor que eu sufoquei, agora pede desesperado para sair. Grita, escapa, transborda. Estou só em uma multidão de amores. Dessa forma demonstro minha fragilidade, meu desamparo. Eu não procuro alguém para pertencer a mim. Eu acho que eu quero uma fonte segura de amor que não dependa de scripts prontos, falas decoradas e de obrigações. Eu sei que abri mão de varias oportunidades. Sei que já fiz pouco caso do amor e do amor que me entregaram de maneira pura e gratuita. Se as pessoas vivem indo e vindo, eu so estava procurando alguém que fosse eterno na sua mínima duração, que me fizesse parar de achar normal essa historia de perder pessoas pela vida
Vou embora querendo que no fundo alguém me peça para ficar. Estou sempre de partida, de malas prontas, e mesmo se por acaso eu me descuido, mantenho um nécessaire em caso de necessidade de fuga. No fundo eu quero soltar um “ me impede de ir”  e acabo calada, por que não faz sentido dizer tudo isso sem ter para quem.
Eu não quero viver como se sobrevivesse a cada dia que passo sozinha. Não quero andar como se procurasse meu complemento em cada olhar vago. Devo merecer isso. E fico só esperando, na surpresa do dia que eu desencanar de esperar um par de olhos que me faça a ficar sem nenhuma palavra, nada alem de dois olhos se enlaçando em quatro. Nessa multidão de amores, sozinho é aquele que não espera. Afinal, é apenas um olhar...

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