Decidi arrumar a minha casa de dentro. Fazer uma faxina de
mim. Estava há tanto tempo sem ser mexido, ninguém entrava e não deixava nada
ser tirado do lugar. Tudo tinha que ser mantido da mesma maneira de sempre. Eu e
minha enorme mania de arrumação e de apego.
Arrumando essa casa, juntei estilhaços que estavam espalhados,
pra esquecer um amor antigo o atirei na parede e nunca mais me preocupei em
recuperar os cacos que estavam pelo chão. Eu cortava meus pés todos dias, mas não
os tiravam do lugar.
Encontrei dentro de gavetas declarações de amor de gente que
já não me amava mais pelo caminho. E sempre quando eu estava prestes a começar
uma vida nova, eu dava um jeito de voltar nessas recordações, de um passado
seguro. E assim, ergui tantas paredes rabiscadas pelo medo.
Joguei fora amores, dores, sentimentos, pensamentos, folhas de
papel rabiscadas, joguei fora corações quebrados, tempo perdido.
Descobri tantas coisas dentro dessa casa. Redescobri algumas também.
Percebi quando eu abri as janelas que a chuva forte também tem o mesmo som que
aplausos. E quando me dei conta, estava aplaudindo. Não a chuva, mas tudo o que
eu jogava pela aquela janela. Joguei fora tudo que não queria mais dentro da
minha casa.
Descobri que na pauta dos meus lábios só cabem palavras
macias, doces. Descobri que eu tenho uma maneira de gostar exagerando os fatos,
exagero sobre sentimentos, sobre pessoas. Descobri que a ficção é o que mais
participa da minha realidade.
Quando eu arrumei a minha casa de dentro puder perceber que
essa é uma tarefa infinita, incansável. E sempre há de se renovar as coisas
para que haja espaço para as novas. E que uma boa base, uma boa estrutura
impede um desmoronamento, mas que também a implosão da estrutura inteira, as
vezes, é a coisa mais sábia a se fazer. Estou pensando depois dessa arrumação,
se explodo tudo ou preparo uma faxina para breve.

Comentários
Postar um comentário
Deixe aqui sua opinião e dúvida sobre o universo feminino!