Nesse exato minuto em que o planeta Terra passeia pelo sistema
solar, há uma infinidade de vidas que se iniciam e outras que se acabam. É natural.
É o ciclo que temos que passar. Talvez eu consiga ver o dia em que morrer será
a exceção e o mundo atingirá a sua lotação. Para isso existe a ciência, a
medicina: evitar que a vida chegue ao fim e rápido demais. Viver alcança seu
valor máximo. Observo tantas pessoas a sorrir com conquistas e ensaiando um
futuro próximo.
Não é o que eu quero. Quero mais é viver o presente. Agora ainda
mais que entendo que o futuro pode não me pertencer. Cansei de me preparar para
um dia que pode não chegar. Nem tudo é como planejamos, na verdade, na minha
pequena experiência nada foi como planejei. Existe vida no agora? Se exista,
vou começar a procurar já.
Eu tenho essa urgência de viver, essa pressa incompreensível de
qualquer coisa que me ultrapasse da inércia. É isso que me faz jogar dados por
acaso e querer sair de carros em movimentos. Por isso não gosto de passar por
viadutos. Meu quase suicídio diário não é uma forma de morrer. É uma tentativa
desesperada de encontrar essa vida, testar a minha inteligência, minha coragem
e a minha capacidade de quase ir e voltar, descobrir se realmente mereço estar
aqui.
Tenho a impressão de já ter atingindo o auge da minha
maturidade, mas não tenho espaço físico ou moral para existir nessa condição. Estou
pronta para simplesmente largar tudo pra trás todos os dias, mas algo finca
meus pés no chão sem mesmo me dar um aviso prévio. É preciso ser coerente pra
ser aceito, mas como não me contradizer tentando achar equilíbrio? Como não ser
um pouco louca nesse mundo tão absurdo?
Não vem me oferecer a desculpa de faculdade/emprego/família. Isso
não funciona comigo. Não é uma verdade absoluta. Ninguém aprende a viver
sentado em uma carteira. Ninguém aprende a ser feliz assim. Não é uma formula
de Pitágoras ou a definição de um pronome oblíquo que vai me fazer mais ou
menos inteligente. Nem me ensinar a viver como eu quero.
A vida se aprende nas perdas. Durante o sofrimento. É perdendo
a liberdade que a gente descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que a
gente descobre que não vale nada. É perdendo o apoio que a gente descobre que o
mundo não para simplesmente só por que o nosso parou. A vida continua, vai em
frente, quase sem paradas.
A gente vai aprendendo a viver assim, na marra, no grito, no sufoco no impulso. Eu quis mudar o mundo com minhas mãos, quis ser brilhante,
ser reconhecida. Nada disso aconteceu. Hoje eu quero bem pouco e prefiro me
concentrar no agora do que me perder no que vem depois.
Eu me libertei da culpa e dei de cara com algo surpreendente
novo:não me encaixo e não aceito. Não é justo perder as asas no momento em que
se descobre tê-las. É preciso poder voar, é preciso ter uma visão estratégica das
janelas. Ver o Sol e não poder tê-lo é um absurdo.
Então deixo algumas coisas passarem incompletas por que sei
que algumas palavras ainda não existem tradução. Por mais que eu grite,vai ter alguém
que não entenda. Que não me aceite. E enquanto isso apenas o que eu não aceito
é ter nascido em um mundo tão grande e não poder voar. Vou voar. Quem quiser
que me acompanhe.
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