Tenho uma raiva dela, ela sempre faz questão de mostrar o quão
fácil é passar por cima de mim. Basta que a noite chegue, que as luzes se
apaguem, que o álcool faça efeito, um mínimo de espaço. E lá vem ela, se
revela.
Ela fala demais, e não tem o que dizer. Ri demais, acha graça
de tudo. É tão agradável e você quer ter ela sempre ao seu lado, mas ao mesmo
tempo tem algo de agressivo, algo que te faz sentir mal, talvez.
Por que ela simplesmente não fala logo seu nome, por que tem
essa mania horrorosa de sair andando entre as pessoas a cada minuto que você
distrai. Por que ela insiste em falar de astrologia se ninguém acredita mesmo?
Por que perder o mistério, se ninguém quer realmente saber sobre sua ideologia
barata?
Sou só um amontoado de ideias perdidas que ela revela sem
sequer me pedir licença e depois fica ali achando bonita a minha contradição quando
amanhece.
Ela é ótima na arte de acumular pessoas, no sentido da
palavra. Não conquista, não agrada, acumula. Tem uma mania de chegar sozinha,
com os amigos, e vai embora sozinha. Mas gasta um repertorio inteiro de
palavras e se despede de todos os semi-conhecidos da noite.
Me diz, alguém vê através disso? Talvez essa busca seja o único
motivo de deixar acontecer. Sempre me acostumei a ser cenário e quando eu viro
personagem, acho pedir demais escolher o que interpretar.
Que me venha qualquer coisa fútil alegrar meu figurino, que
seja brilhante, inesquecível, mesmo que seja feio. Essa menina é mesmo um sopro
de doçura, enjoativa, misturada com o pior dos venenos, fazendo com que a minha
presença seja ao mesmo tempo marcante, confusa, passageira e duvidosa.
É como conhecer todo mundo e não conhecer ninguém. Pior. É como
se todo mundo me conhecesse mais ninguém realmente quisesse saber sobre mim. Só
dessa louca que anda saindo por ai sendo tudo ao mesmo tempo e nada, para
finalizar.
Ninguém desconfia do que sobra pra mim pela manhã. Talvez,
seja melhor assim. Uma espécie de proteção, como se essa superficialidade fosse
só um ensaio do que um dia eu vou mudar. Que eu vou ter coragem. E a única duvida
que me resta não é qual das duas eu realmente sou, mas qual é realmente
importante. E quem vai me restar se eu escolher uma só para viver.
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