Eu sempre exponho meus sentimentos, me coloco em uma vitrine,
a espera de alguém que aceite pagar o preço por mim. O preço que nunca entra em
liquidação. Mas quando vem alguém que quer levar, sem olhar o preço absurdo da
etiqueta, eu só penso na futura devolução.
Quero logo voltar para os vidros sujos, a exposição sem
objetivos, ver todos os produtos indo embora e eu ficando mais uma vez. Esses
rostos que me encaram, esses olhos que brilham, as ilusões que se formam, as
expectativas que eu insisto em criar, são minha vida. Depois disso só resta a
rotina e o medo de estar perdendo a melhor parte.
Me cansei dessa promoção de mim, cansei de me entregar tanto,
de ser completo e de ser só uma promessa, a vertigem e enfim a decepção. E
então esse cansaço que não passa, que eu não consigo definir se é dos outros ou
de mim mesma.
Isso é um aviso, um bilhete para ser colocado na geladeira,
telegrama, sinal de fogo, e-mail, não importa. Estou gritando seu nome, aos
ventos e dentro de mim. Do alto da minha insanidade.
Me leva embora, prova que não é igual, que a compra não vai
ter devolução no primeiro defeito. Por que eu sou cheia deles. Me compre, me
leve pra casa com tudo o que vem comigo, com tudo que tem direito. Com medos,
manias, com o falar de mais e sentir de menos.
Por eu ser assim, cheia de certeza de tudo, eu apenas quero
alguém que me prove o contrario.
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