Quando você nasce, cresce e começa a amadurecer dentro
daquele seu castelo que te enclausuraram, é difícil abrir os olhos depois, é difícil
encarar a luz. Comigo foi de uma hora para outra. Entre uma insônia e outra. Olhando
as fotos, percebi o quanto eu não vivo.
Lembrei de como tudo sempre foi, de como tudo nunca muda. E depois
de me olhar no espelho e fui perceber o modelo de filha, irmã, amiga, namorada,
que criaram para mim em algum momento da infância que eu não me lembro qual,
mas que sempre segui a risca. Ou tentei. Sou o modelo que nunca segue do jeito
que acha que deve seguir. A criação de
um modelo, faz com que ninguém sabe de verdade o que você é. Poucos sabem que
eu sou desastrada, Também não sabem que já quase arranquei o queixo de alguém
com o joelho porque ele estava vindo me beijar. E não sabe dos milhões de socos
e tapas que dei sem querer em uma multidão de seres que cruzou meu caminho por
pura distração.Também não sabem das incontáveis vezes que derramei leite em minha roupa branca, e das vezes que entrei de sutiã no chuveiro e das vezes que sentava na tampa do vaso. Das milhares de vezes que machuquei pessoas pelo meu jeito impulsivo e que, na verdade, não sou tão certa assim. Sou frágil demais pra quem me vê trabalhando e brigando com o carinha da telefonia. E que sou chorona demais pra quem me vê dizendo que não quero me apaixonar, nunca mais. E que por trás de todo esse rímel e batom rosa, existe uma criaturazinha que se derrete quando é abraçada, que se encanta fácil demais, que faz as maiores loucuras só pra fazer bem a quem gosta, e que senta várias tardes na beira-mar só para tentar escrever um poema, compor uma música, e observar as datas em que as pessoas escreveram seus nomes na árvore junto a outro nome que, provavelmente, nem esteja mais ao lado dela.
Eles não sabem da minha paixão pela lua e pelo pôr-do-sol. E também não notam os livros que ando lendo nem que, as vezes que me chamam pra jantar e eu recuso, é porque estou com a janela do quarto aberto, olhando a rua,ouvindo música, escrevendo meus textos. Coisas que eles nunca fizeram e não entendem o significado. Não entendem o meu medo de borboletas, nem minha paixão pelos dias frios de chuva, nem porque meus olhos têm brilhado tanto. Não entendem que não sou o modelo que eles traçaram, que eles queriam. Que a minha profissão não é a do sonho deles, e que eu sou estranha assim.
Que isso tudo sempre me fez bem e que foi o que eu sempre
sonhei.
Que eu não quero namorar um modelo, como eu. Mas alguém que só queira viver intensamente. Como eu tenho tentado, ultimamente.
Que eles, algum dia, possam conhecer de verdade a pessoa que conviveu com eles todo esse tempo, e que prestem mais atenção nos simples detalhes que sempre me fizeram toda diferença.
Os detalhes que me fazem insistir no amor, na amizade, na fé. Que não me deixaram parar de remar.
Que eu não quero namorar um modelo, como eu. Mas alguém que só queira viver intensamente. Como eu tenho tentado, ultimamente.
Que eles, algum dia, possam conhecer de verdade a pessoa que conviveu com eles todo esse tempo, e que prestem mais atenção nos simples detalhes que sempre me fizeram toda diferença.
Os detalhes que me fazem insistir no amor, na amizade, na fé. Que não me deixaram parar de remar.
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