Meu mundo se resume a ressaca. Ressaca de uma mistura contínua de gênios e personalidades que eu nem imaginei que pudesse conhecer. Eu também não sabia que, além de misturar bebidas, misturar pessoas e situações também dá ressaca; e meu mundo se resume a isso. A uma ressaca constante de tudo isso que aparenta ser a ilusão do que foi vivido, quando na verdade, nada se viveu e se tem toda uma vida a descobrir, ainda. Essa ressaca de palavras repetidas, de canções mal interpretadas, de paixões que eu já nem lembro, de perguntas sem respostas e de respostas soltas ao vento, de noites mal dormidas, ressaca de acordar arrependida. Ressaca do medo, da incerteza e do espinho que se aloja na garganta todas as vezes que evito o riso tentando ser politicamente correta. Ressaca dessa faixa amarela que sempre está entre eu e alguém que eu não conheço e não poderei conhecer por ela estar exatamente ali, no meio do caminho, dando alerta para a passagem proibida, me negando a minha própria descoberta, o meu passado que eu nem sei se lembro mais. Ressaca dessa minha impulsão absurda que me faz cometer as maiores loucuras e depois tomar um banho quente rindo de mim mesma por ser tão boba e tão serena. Ressaca dessa saudade que teima em se alojar aqui e permanecer o tempo que puder por saber que é mais forte por trazer lembranças de momentos que me fazem tanta faltam. Ressaca de me olhar no espelho e ver essa menina fujona, medrosa e cheia de alguma coisa que eu não sei o nome direito, mas que a faz anular dores profundas e viver momentos imbecis os quais a faz feliz como nenhum outro. Ressaca dessa menina estranha que aparece todo dia no espelho tentando dar um jeito no cabelo, escovando os dentes três vezes e reclamando de não ter roupa. Ressaca desse silêncio que fala alto, dessa mensagem que chega mesmo que o celular não toque, a caixa do correio esteja vazia. Ressaca dessa ponta de iceberg que só deixa amostra parte do que sou.
Não vem não, não desse jeito, me ligando, me mandando mensagens, me fazendo rir, fazendo tudo pra me ver, não faça questão de mim, para de fazer acontecer. Não vem com esses beijos que me transportam para outro continente durante segundos que parecem minutos intermináveis. Não vem cheio de atitude, me mostrando assim logo de cara, que eu nunca tinha conhecido um homem antes. Não chega desse jeito não, contando suas historias, sua vida doida, suas aventuras pelo mundo, que o meu mundo é apenas do portão pra dentro. Não vem querendo invadir. Não vem dizendo todas essas coisas que você sabe fazer e que faz tão bem, para de falar sem pausa, com essa fala meio mansa, passando a mão no rosto como quem nada quer. Ah não, não sorri agora, se tem sorriso que acaba comigo o seu pode me levar a nocaute... Não tenta acabar com as minhas paranoias, não acaba com as minhas duvidas, se devo ou não te mandar um sms, se devo ligar, por que você já faz tudo isso, quando não me pede par...
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