O quarto apagado, a janela aberta, apenas a luz do poste e do
notebook ligado. Ouvindo musica, tentando relaxar. Meu dia não foi um dos
melhores. A parte boa, foi andar sem rumo pela rua e mesmo assim não encontrar
meu lugar. Pensei em ligar para varias pessoas, pensei em correr para o colo de
alguém, pensei em sentar no banco da praça e ver o dia indo embora, ali,
quieta. Queria o colo que ninguém podia me dar, mas tudo bem. Vaguei mais um
pouco, mal olhei para os olhos de quem cruzava comigo na rua e vim para casa.
Agora, eis-me aqui. Com alguma coisa presa na garganta que, há
tempos, não quer sair. Criei uma vida
pra dentro. Lendo, escrevendo, ouvindo musica. Poucos os que me conhecem tão bem
agora, poucos os que notam quando eu choro pelo telefone e para saber que por trás
de uma risada existe é uma imensa vontade de deitar num ombro e pensar em nada.
E quando a gente vive pra dentro, certos dias a alma pede um pouco mais de espaço
e eu fico assim.Na verdade, eu queria poder caminhar na beira do mar, ver a
lua se esconder nas nuvens, deixar a chuva molhar o meu rosto e deixar que meus
olhos se perdessem no horizonte. Queria
esquecer da hora, esquecer dos compromissos e responsabilidades, viver como na
época que eu achava que era adulta mas vivia como criança, eu saia e
caminhava na companhia de quem
eu queria, falando sobre tudo. Queria a tranqüilidade de deitar no chão da
varanda e ver o céu passar devagar, ter ainda aquele fio de esperança que eu
veria uma estrela cadente; sonhar acordada.
A criança teve que virar
adulto e, sinceramente, tô querendo pedir as contas. Eu tinha tanto amor guardado aqui dentro de mim, hoje, restou uma coisa seca, sem graça. Não sei se era amor, até porque, eu nunca tive preparo algum para dar nomes às emoções, nem mesmo para entendê-las. Mas, confesso que, essa coisa seca que restou dentro de mim foi a coisa mais verdadeira que eu pude conhecer, e é a minha essência.
Eu tenho andado pensativa. A gente nunca prevê aquilo que pode acontecer, a gente nunca sabe em que estação o trem vai parar, se alguém vai ficar por ali e quem vai embarcar. Nos últimos tempos, as pessoas desembarcaram sem se despedir, foram saindo, o trem esvaziando e, o meu vagão ficou sozinho. Eu e mais uns poucos que precisam continuar a busca de algum vazio que preenche. Todos foram saindo, deixando gravado em mim cada detalhe da viagem... Foram, sem se despedir. E eu conheço bem esse tipo de partida, não há volta.
E, eu fiquei. Fiquei e seguro nas mãos dos que ficaram comigo, de alguns que embarcaram e de outros que estão avisando que precisam ir embora e seguir viagem em outro trem. Meu coração vai ficando espremido, como se nem existisse mais aqui dentro de mim. Vez ou outra eu sinto o seu pulsar, é a esperança de dias bem melhores, de sorrisos verdadeiros, de lágrimas de felicidade, de abraços sinceros e apertados.
Confesso que, como qualquer humano, eu penso em desistir, em deixar que o vento leve tudo, mesmo sabendo que o vento nunca trás nada de volta exatamente como era antes. Mas, não se preocupe, eu não vou desistir. Tem coisa mais autodestrutiva que insistir sem fé nenhuma? Mas, eu continuo insistindo naquele vazio que preenche, no amor sem explicação, naquele tipo de drama que foge dos clichês.
O plano não era ficarmos bem? Entonces..!
Eu sempre fico bem... Sempre.
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